"Isso pode Arnaldo?"

Você que reclama do Brasil, quanto paga para sua empregada?

Que horas ela volta? A pergunta dá nome a um filme brasileiro, da cineasta Anna Muylaert, que trata dos conflitos entre uma empregada doméstica e seus patrões de classe média alta. Claramente, faz uma crítica às desigualdades do país e como elas se reproduzem nas relações humanas. É um tiro na nuca dos hipócritas – aqueles que  costumam criticar as injustiças cometidas pelos poderosos, mas são incapazes de admitir que tratam os humildes com o mesmo desprezo ou oportunismo.

Histórias terríveis sobre as pequenas e grandes maldades cometidas por “gente do bem” não faltam. Eu mesmo tive uma vizinha que guardava prato, copo e talheres da empregada debaixo da pia da cozinha, junto com material de limpeza e produtos químicos. Desprezível. Claro que essa patroa se julgava uma pessoa justa e de bom coração, embora não registrasse a mensalista nem pagasse horas extras e outras “regalias”. Ela, inclusive, ficou muito “indignada” quando, anos depois, foi intimada pela Justiça do Trabalho.

Os estudiosos de hoje garantem que alma do brasileiro é escravocrata. Aquela conversa de “cordial” já era. Faz sentido. Basta olhar ao redor e constatar que realmente temos muita dificuldade de enxergar em nós mesmos os defeitos que acusamos em políticos e empresários.

A PEC das Empregadas já havia trazido à tona esse debate, quando instituiu alguns direitos trabalhistas que já deviam estar consagrados. A gritaria foi geral. Veio algum alívio com a reforma trabalhista de Temer, mas continua fácil encontrar falsas madames reclamando das “secretárias” e “auxiliares” do lar: incompetentes, preguiçosas, esfomeadas, ingratas, mal-acostumadas. Não tem limites a vocação para vítima de alguém que ostente um fiapo de poder.

Quanto pagam para uma empregada doméstica? Você, humanista de esquerda? E você, liberal de direita? Quanto você paga para que lavem sua privada e roupas íntimas? Bem pouco, né? O que faria se ganhasse um salário mínimo por mês limpando a casa alheia? Provavelmente, viveria reclamando.

Essa é uma das maiores feridas abertas da nossa sociedade. É um abismo intransponível, parece. Mas enquanto não diminuir essa distância entre o discurso público e a prática diária, a tendência é continuarmos reféns da confortável e cínica situação em que purgamos nossos pecados falando mal de políticos – eleitos, todos eles, com o voto de quem mesmo?

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