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Por que prestar atenção nas eleições da França?

Da esquerda para a direita, os candidatos à presidência na França: Jean-Luc Melenchon; Emmanuel Macron; Benoit Hamon; Marine Le Pen e François Fillon

A quatro dias da votação, o resultado do primeiro turno das eleições na França ainda é totalmente imprevisível. Apesar das pesquisas de opinião apontarem um possível segundo turno entre Marine Le Pen, do partido de extrema direita Frente Nacional, e do independente Emmanuel Macron, candidato de centro-direita, mudanças repentinas na liderança da corrida nas últimas semanas mostraram que, de fato, só será possível apontar um ganhador após a apuração.

Os franceses vão às urnas neste domingo, 23,  para decidir a disputa do segundo turno, a ser realizado no dia 7 de maio. Há muitos motivos que tornam esta eleição tão inusitada e digna da atenção do mundo todo.

Os candidatos foram revelados em cima da hora

Os nomes dos candidatos que participariam da corrida foram liberados pelos partidos pouco antes da data máxima permitida por lei, o que é bastante incomum para o país. A incerteza de quem estaria na disputa ajudou a criar ainda mais confusão entre os eleitores.

A França teve dois presidentes com mandatos únicos seguidos

Nicolas Sarkozy foi eleito em 2007, mas derrotado por François Hollande nas eleições seguintes, em 2012. Hollande desistiu de concorrer a um segundo mandato, já que sua taxa de popularidade entre os eleitores está cada vez mais baixa (chegou a apenas 4% em novembro). Com dois presidentes que ocuparam o cargo por um único mandato, a França agora tenta mudar sua história recente e, quem sabe, consiga escolher um candidato que mantenha uma boa popularidade entre os eleitores, que foram tomados pelo pessimismo político nos últimos anos. Uma pesquisa de março concluiu que os franceses são os que têm menos esperança política na Europa e que 53% da população prevê que a atual situação da nação deve piorar ainda mais no próximo ano.

Nenhum dos candidatos que começaram como favoritos continuam na corrida

Os principais favoritos nas eleições francesas desistiram da corrida ou perderam as primárias de seus partidos. Hollande abandonou sua candidatura. Sarkozy  e Alain Juppé, dois candidatos populares do partido Republicano, foram derrotados por François Fillon nas primárias. Manuel Valls, do Partido Socialista, também perdeu nas primárias para o improvável Benóit Hamon.

A mudança no foco da corrida eleitoral é mais um fator que ajudou a tornar essa disputa extremamente imprevisível.

As pesquisas indicam que nenhum dos candidatos dos maiores partidos passarão para o segundo turno

Segundo as pesquisas mais recentes, três quartos dos eleitores tendem a apoiar um candidato que não pertence a nenhum dos dois grupos políticos que comandaram o país nos últimos 60 anos. Hamon e Fillon, representantes dos dois maiores partidos de esquerda e direita, estão sendo superados porEmmanuel Macron, de candidatura independente, e por Marine Le Pen, do partido de extrema direita Frente Nacional. Jean-Luc Mélenchon, candidato pelo movimento de esquerda radical França Rebelde, também viu seus números crescerem nas últimas semanas e tem chances de terminar o primeiro turno das eleições em terceiro lugar.

Esse cenário reflete a atual situação de colapso dos partidos mais tradicionais, tanto de direita como de esquerda, que foram marcados por décadas de fracasso em tentar combater as grandes taxas de desemprego na França. Dessa forma, os dois candidatos apontados como favoritos representam partidos e movimentos menores ou extremamente novos. O França Rebelde, por exemplo, foi fundado por Mélenchon em 2016. Ele defende uma “revolução popular” que inclui a retirada da França da Otan.

Uma nova ordem política deve ser instaurada

A menos que François Fillon ganhe, a eleição levará a uma nova ordem política que pode, potencialmente, desestabilizar o país. O partido Republicano, de Fillon, já é conhecido na política nacional e o candidato provavelmente adotará posições semelhantes às de Nicolas Sarkozy no passado.

Le Pen, com seus ideais anti-imigração e anti-União Europeia, promete causar uma reviravolta na política nacional caso seja eleita. Sua campanha eleitoral é totalmente oposta à de Macron, que é favorável ao bloco europeu e ao euro e pretende aumentar a integração econômica entre os países membros do bloco. Qualquer um dos dois candidatos deve sofrer para implementar as medidas que tem em mente caso seja eleito, já que provavelmente não conquistarão o apoio da maioria parlamentar.

O resultado terá impacto em toda a União Europeia

Depois das eleições na Holanda, a votação na França é a próxima grande prova do poder dos movimentos nacionalistas na Europa. O candidato de extrema direita holandês Geert Wilders perdeu nas eleições legislativas locais, mas o fantasma da propaganda anti-União Europeia ainda assombra o bloco.

Caso Marine Le Pen saia vencedora, as políticas francesas devem se voltar contra o grupo europeu e a zona do euro – e podem resultar em um novo plebiscito sobre a saída da UE Além disso, uma primeira vitória de um candidato populista nacionalista poderia dar vantagem para outros partidos da vertente, como o Alternativa para a Alemanha (AfD), que ganha mais adeptos às vésperas das eleições legislativas alemãs.

As pesquisas de opinião têm errado muito

As últimas pesquisas de opinião sobre os possíveis vencedores das eleições francesas têm variado muito em seus resultados. Na última semana, Macron parece ter superado Le Pen e aparece com 24% das intenções de voto contra 23% da candidata da Frente Nacional nas primárias. Fillon aparece com 19,5% e Mélenchon com 18%.

Já as pesquisas que preveem os resultados do segundo turno apontam uma provável derrota de Marine Le Pen, não importa qual dos três favoritos sejam seu adversário. Contudo, como as eleições americanas e o Brexit demostraram, o apoio a movimentos populistas tem sido subestimado e as pesquisas de opinião têm falhado em refletir as intenções reais dos eleitores. As pesquisas também têm dificuldade em acessar as intenções de votos de candidatos menos tradicionais.

Além disso, as eleições deste ano tendem a ter uma participação popular menor do que as anteriores. Na França, o número de eleitores costuma ser bastante alto: nas primárias das últimas eleições de 2012, 80% dos cidadãos compareceram às urnas. Porém, este ano as pesquisas apontam que esse valor pode cair em até dois terços, o que significa que será ainda mais difícil prever um vencedor com as pesquisas de opinião. Veja

 

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