Opinião

João Pessoa, uma cidade ainda Rurbana? Por André Aguiar

Rurban é um neologismo surgido em meados de 1930, nos Estados Unidos, que foi aportuguesado para a palavra rurbano, que nada mais é do que a tentativa de estabelecer uma mediatriz entre duas situações ou estados polarmente opostos, que seriam o rural e o urbano, ou seja, diria assim, um estado intermediário, ou ainda, valores e estilos de vida rurais e valores e estilos de vida urbanos.

Trago a baila aqui, apenas sob os aspecto comportamental e social, sem deslembrar entretanto, de “surfar” no aspecto geográfico, que por sinal encontra-se bastante desidratado, é verdade.

Pois bem. A linda Capital de Nossa Senhora das Neves, detém, ainda que venha se “distanciando”, essas características de comportamentos de população rural estando num espaço urbano.

Como alguns podem chegar a pensar o contrário, antecipo por convicção, que trata-se de aspecto importante, que agrega valor na vida das pessoas, principalmente por saber que a ideia de viver uma “vida mista”, de conciliar “contrários” (rural x urbano) é perseguida por muitos, é por assim dizer, um estilo de vida, mesmo existindo em alguns casos, uma mentalidade prioritariamente urbana.

A cidade de João Pessoa, movimentou-se, urbanizando-se do Porto do Capim, subindo os montes de sua Catedral, onde se avizinham um rico patrimônio histórico e cultural, cuja trajetória, descentralizou-se para o seu vasto e encantador litoral, com praias paradisíacas e brilhantes coqueirais, (cresceu do rio para o mar). Se “esparramou” e fixou-se, por onde eram sítios e fazendas, cheios de rios, e matas, permeados de um solo fértil, aqui, ali e alhures…, um cinturão verde, eis aí a sua vocação, a preservação do meio ambiente.

Mas nem tudo são flores e jardins nesse manancial da Filipéia, o crescimento demográfico, trouxe por óbvio, as mazelas da insegurança e violência, das doenças psicossomáticas, existenciais até, das viroses, tanto em moda hoje em dia, dos adensamentos populacionais, da favelização e tantos outros males que assolam as zonas urbanas no Brasil.

Restaram entretanto, pequenos “pontos de luz” que contemplam esse limbo, do comportamento dos habitantes de João Pessoa, “interna corporis”, assim, nesse entremeio do rural e do urbano, observado ali por exemplo, nas calçadas da Praia do Cabo Branco e Tambaú, onde pessoas descansam livremente com suas cadeiras, espreguiçadeiras ou sentadas naqueles banquinhos, ou no passeio público das caminhadas matinais e ao pôr do sol, com segurança, e aquele “ar de compadrio” havido entre os transeuntes.

Podemos ainda elencar outros bairros, como a Torre do seu mercado e praças, (praça São Gonçalo) o tradicional bairro do Róger, (Bica), de Jaguaribe, (praça dos motoristas), e bem como Mangabeira, com sua vida e características próprias, dentre outros tantos espaços públicos. Não se esquecendo daquele comportamento que é bem nosso,,,, ou seja, o de cultivar jardins, plantar árvore, isso é nato do Pessoense.

Há um combalimento, tanto nas cidades como no campo, desses valores comportamentais, e aqui e acolá os males se alastram, transmitidas pelos meios de comunicação de então, internet, (que tanto me agrada) principalmente. Muito embora, esse talvez seja o preço das novas tecnologias. No mundo virtual, não há o rural e o urbano e isso tem trazido mudanças, que nos trazem os bons e maus costumes, o cardápio é vasto…

Gosto de imaginar as cidades como o sistema celular do corpo humano, que é formado por uma quantidade enorme de células… e nesse particular, corpo humano é pluricelular (várias células). É constituído de 10 trilhões de células, que trabalham de maneira integrada, donde cada uma possui uma função específica, a saber: nutrição, proteção, produção de energia e reprodução. Entretanto, se houver um distúrbio dessas células, o corpo padece….

As células das cidades, mal comparando, para mim, seriam os bairros, logradouros e praças, ter um olhar mais acurado, detalhado mesmo. Gostaria de propugnar, digo, somente aqui como exemplo, sob o aspecto da segurança, o uso de câmeras, iluminação pública de qualidade, polícia de bairro, é o que os especialistas chamam de dissuasão.Criaríamos por via de consequência, células de segurança, a começar do núcleo de nossa cidade, qual seja, o centro histórico de João Pessoa, (onde tudo começou) reabitá-lo, trazer de volta os seus habitantes, dá habitabilidade.

Já aqui deixando um norte, algumas sugestões, que seria o de promover incentivos fiscais e tributários para o moradores (isenção por alguns anos de IPTU), diminuição dos valores do ISS, (empresas) somente para exemplificar alguns…como diz o dito popular, mexendo com a parte mais sensível, o bolso.

Não seria exagero, postular políticas nesse sentido, necessárias para livrar nossa cidade, tanto dos excessos já evidentes de uma patológica urbanização, quanto dos arcaísmos de um ruralismo romântico.

Para essa conjugação, inspiro-me ainda na fertilidade do Princípio da Subsidiariedade que está entre diretrizes da Doutrina Social da Igreja, (Papa João Paulo II) presente desde a primeira grande encíclica social, in verbis;

(185) “É impossível promover a dignidade da pessoa sem que se cuide da família, dos grupos, das associações, das realidades territoriais locais, em outras palavras, daquelas expressões agregativas de tipo econômico, social, cultural, desportivo, recreativo, profissional, político, às quais as pessoas dão vida espontaneamente e que lhes tornam possível um efetivo crescimento social”.

E ainda;

“Com base neste princípio, todas as sociedades de ordem superior devem pôr-se em atitude de ajuda («subsidium») — e portanto de apoio, promoção e incremento — em relação às menores. Desse modo os corpos sociais intermédios podem cumprir adequadamente as funções que lhes competem, sem ter que cedê-las injustamente a outros entes sociais de nível superior, pelas quais acabariam por ser absorvidos e substituídos, e por ver-se negar, ao fim e ao cabo, dignidade própria e espaço vital.”

Por fim, é o futuro Prefeito, como diz a própria palavra, “Feito Antes” ou os futuros Vereadores cuja a etimologia remota é verea, forma arcaica de vereda (“caminho, estrada secundária”), de onde surgiu o verbo verear, possam nesse período, que antecede aos novos rumos de nossa cidade, executarem, essa rurbanização, notadamente, das suas consciências e subconsciências.

É o meu modesto pensar!!!

André Luiz Aguiar – Advogado e Agrônomo

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