Formula Um

Hamilton e Mercedes assustam a concorrência na Catalunha

É possível que uma reação dessa natureza, expressa na sua cultura, tenha sido dita pelo alemão Sebastian Vettel, da Ferrari, bem como o holandês Max Verstappen e o australiano Daniel Ricciardo, ambos da RBR, depois de verem de perto o resultado do quarto e último dia de treinos da pré-temporada, nesta quinta-feira, no Circuito da Catalunha, em Barcelona.

Lewis Hamilton, com o novo carro da Mercedes, W09, estabeleceu o tempo de 1min19s333, ao longo de suas 69 voltas, melhor do dia e dos quatro dias. O que mais chamou a atenção é que ele tinha os pneus médios. Não dá para concluir, de forma alguma, que a Mercedes deverá começar o campeonato bem na frente dos adversários, como foi de 2014 a 2016, afinal o número de variáveis capazes de interferir na definição dos tempos é grande. Mas é verdade também, e Vettel, Max e Ricciardo sabem disso, que não é possível fechar os olhos para o que assistimos na primeira série de treinos.

Vettel disse ao redor das 12h, hora local, antes de a pista secar e todos aproveitarem a rara oportunidade de treinar, ter certeza de que ele e Hamilton vão de novo estar muito próximos na pista este ano. Em 2017, Vettel liderou o mundial da etapa de abertura, em março, na Austrália, até o GP da Itália, em setembro. Só então Hamilton se tornou líder.

Mas talvez pensasse duas vezes antes de afirmação semelhante depois de ver como foi fácil para o piloto inglês, quatro vezes campeão do mundo, como ele, estabelecer nesta quinta tempos tão promissores na pista catalã.

A Ferrari tem um carro, o modelo SF71H, modificado em algo bastante importante, a distância entre eixos, é maior este ano, seguiu o exemplo da Mercedes, em 2017. Isso faz com que os engenheiros focalizem seu trabalho em entender como o carro se comporta se mexerem aqui ou ali, visam estabelecer um padrão básico de reações para só depois se preocupar em obter melhores tempos. As 120 voltas de Vettel nesta quinta-feira atestam a intenção de mantê-lo na pista o máximo de tempo, a fim de colher dados técnicos.

É um atenuante e tanto para Vettel e a Ferrari justificarem a diferença para Hamilton. Melhor: procedente. É por isso que os quatro dias de testes da semana que vem, de terça-feira a sexta-feira, no mesmo Circuito da Catalunha, assumem papel ainda mais determinante no que poderemos assistir nas primeiras etapas do campeonato.

Por enquanto, Ferrari bem mais lenta

Vettel, sem interesse elevado em ser veloz, registrou nesta quinta-feira, com pneus macios, 1min20s241. De novo, Hamilton, com médios, 1min19s333. O alemão foi 908 milésimos mais lento, para se ter uma leve referência da diferença. É importante acrescentar nessa análise que entre os pneus médios de Hamilton e os macios de Vettel há algo como meio segundo, assim, a diferença hipotética entre ambos ficou na casa de um segundo e meio, aproximadamente.

A Pirelli disponibiliza todos os tipos de pneus aos pilotos nos treinos. A McLaren optou por colocar no modelo MCL33-Renault de Stoffel Vandoorne a novidade da temporada, os hipermacios, cerca de meio segundo mais rápidos que os ultramacios, que oferecem sete décimos de segundo de performance aos supermacios. Estes são algo como meio segundo, também, mais velozes que os macios que, por sua vez, outro meio segundo para os médios.

Vandoorne fez 1min19s854 (110 voltas), segundo tempo, 521 milésimos mais lento que Hamilton, pouco mais de meio segundo. Mas só de pneu há cerca de dois segundos entre a marca dos dois pilotos. Vale a questão: o que Hamilton não obteria com os hipermacios também? É um resultado que se interpretado ao pé da letra, felizmente não possível, deixa os adversários da Mercedes bastante preocupados.

O último dia de testes foi dividido em duas partes bem distintas. Das 9h, início dos trabalhos, até cerca do meio dia, o novo asfalto da pista catalã, mais uniforme e menos abrasivo, esteve molhado e depois úmido. Não houve pausa para o almoço. À tarde, o circuito secou completamente. Na quarta-feira ninguém treinou por causa da neve e a temperatura congelante não acrescentaria conhecimento, sem mencionar que havia o risco de danificar o carro em caso de acidente, fáceis de acontecerem.

Resultado inquietante

O tempo de Hamilton exige reflexões, embora não saibamos, com precisão, a sua condição. Mas não estava muito leve, pois depois de deixar os boxes e, de cara, com os pneus novos, registrar a ótima marca, seguiu na pista, para uma série seguida de voltas, o chamado long run. Em 2017, ao final dos oito dias de testes, Hamilton tinha como melhor tempo 1min19s352, obtido com pneus ultramacios, quarto colocado no geral.

A temperatura era outra, o clima distinto, bem como asfalto. Mas este ano, mesmo tendo completado somente 25 voltas na estreia com o novo Mercedes W09 na segunda-feira e 69 nesta quinta-feira, e com pneus médios, Hamilton já foi mais rápido que em 2017. Vettel, agora, fez 1min20s241, com macios, enquanto o seu melhor tempo, nos testes de 2017, foi 1min19s024, com ultramacios, como Hamilton, segundo no geral. O mais rápido, Kimi Raikkonen, companheiro de Vettel, marcou 1min18s634, com ultramacios.

Raikkonen não treinou nesta quinta-feira, enquanto Valtteri Bottas, companheiro de Hamilton, acelerou o W09 de manhã, quando havia ainda água e depois umidade no asfalto. Ficou com o 12º tempo, com médios, 1min22s789 (60).

RBR, abaixo do esperado

Max, da RBR, escuderia que se espera possa desafiar Mercedes e Ferrari, mais uma vez enfrentou dificuldades, no sistema de alimentação de combustível, a exemplo do seu primeiro dia, terça-feira, e câmbio. O arrojado holandês não deu mais de 35 voltas, com 1min22s058, com pneus macios, nono. Na terça-feira conseguiu completar 67 voltas, tendo registrado o esperançoso tempo de 1min20s326, com pneus médios.

Em entrevista nesta quinta-feira disse sentir que o RB14 é diferente do RB13 de 2017. Deu a entender, bem melhor, apesar de não conhecê-lo bem ainda, pelos problemas que o afetaram nos seus dois dias no cockpit. Na segunda-feira, Ricciardo também emitiu sinais de o novo carro da RBR ser eficiente, ao completar 105 voltas, sem maiores dificuldades, e tendo marcado o melhor tempo, 1min20s179, também apenas com os médios. Esses dados sugerem que Max não está mentindo quando quer dizer que o RB14 nasceu rápido. Ricciardo não andou na quarta-feira, como todos, em razão da neve.

Citamos o tempo de Vandoorne, há pouco. Além dele, Eric Boullier, diretor da McLaren, decidiu colocar Fernando Alonso na pista, para aproveitar a pista seca e, tão importante quanto, a temperatura ambiente entre 13 e 15 graus, bem mais representativa de como será ao logo do campeonato. O asfalto chegou a 19 graus, às 15h45. O espanhol assumiu o MCL33 e com pneus supermacios fez 1min20s929 (51), quinto.

Os integrantes da McLaren há muito não sabiam o que era um piloto da equipe dar 110 voltas, como fez Vandoorne, e o outro, 51, Alonso, no mesmo dia. Na época da relação com a Honda, de 2015 a 2017, a pouca resistência da unidade motriz não os permitiam acumular longas quilometragens, desenvolver o chassi, outra das sérias dificuldades do time inglês.

Se qualquer maneira, ainda que seja somente um teste, ficar tão atrás de Hamilton, usando pneus ultramacios, no caso de Vandoorne, e supermacios, Alonso, não deixa de ser uma evidência que, para as condições desta quinta-feira, a McLaren MCL33 não estava rápida. Muito valiosa, porém, a quilometragem acumulada, 161 voltas ou 749,4 quilômetros, equivalente a dois GPs e meio.

O italiano Giorgio Piola, na sua análise técnica, destacou as mudanças realizadas pelos engenheiros sob a coordenação de Peter Prodromou para diminuir as possíveis dificuldades de arrefecimento do modelo MCL33 da McLaren. As saídas de ar traseiras foram significativamente ampliadas. Isso reduz a eficiência aerodinâmica geral do projeto. Mas até a etapa de abertura da temporada, dia 25 de março em Melbourne, Austrália, há tempo para algumas mudanças, desde que não radicais.

Nos dois primeiros dias, a baixa temperatura impediu de os pneus, não importasse o tipo, esquentassem. E no terceiro, como já mencionado, a neve manteve todos nos boxes. Nesta quinta-feira, o modelo VF18 da Haas pôde mostrar melhor suas qualidades. Há muito da veloz e equilibrada Ferrari SF70H de 2017 nele. Com os pneus supermacios, Kevin Magnussen marcou 1min20s317 (96).

Honda, quem te viu quem te vê

A maior surpresa dos quatro primeiros dias de testes em Barcelona: STR-Honda. Em 2017, associada a McLaren, a Honda não permitiu a Alonso e Vandoorne completar mais e 208 voltas na primeira série de ensaios. Este ano, em apenas três dias, entre Pierre Gasly e Brendon Hartley, a STR-Honda colocou no bolso do macacão de seus pilotos impressionantes 322 voltas, com um dia a menos de pista, na quarta-feira. Se em 2017, a média foi de 52 voltas por dia, este ano, 107, mais do dobro.

Hartley deu 93 voltas na segunda-feira, Gasly, 82 na terça-feira, e o mesmo Gasly, 147 voltas, nesta quinta-feira. Quilometragem total: 1.498,9 quilômetros, equivalente a quase cinco GPs.

E não é só resistência. O modelo STR13-Honda mostrou que há boas chances de seus pilotos não serem os últimos no grid como se pensava. Vamos ver se continuará sendo assim. O chefe da equipe Sauber, Frederic Vasseur, deve ter ficado preocupado com o que viu. A escuderia suíça precisará avançar mais e rápido para deixar a incômoda posição dos últimos anos, objetivo do seu proprietário, Pascal Picci, que investiu bastante, diga-se.

Nesta quinta-feira Gasly obteve 1min22s134, com pneus supermacios, décimo, ao passo que Marcus Ericsson, da Sauber, com os mesmos pneus, 1min23s825 (79), 14º.

Sem alarde, discreta, a Renault realizou outro treino muito bom. Nico Hulkenberg não esteve no melhor momento da pista, 1min22s507 (49), 11º, mas Carlos Sainz Júnior, à tarde, aproveitou a oportunidade e com pneus médios marcou 1min20s940 (58), sexto. A Renault evidencia a cada treino a impressão de poder ocupar, no mínimo, a posição que foi da Force India nos dois últimos anos, a melhor depois das três vencedoras, Mercedes, Ferrari e RBR.

A Force India se apresentou para os testes de Barcelona com o carro não completamente pronto, ainda. E está pagando o preço. Nesta quinta-feira Sérgio Perez deu 65 voltas, sendo 1min21s973, na melhor, oitavo, com pneus macios.

Como na Williams o projeto do FW41-Mercedes é realmente novo, representa um rompimento com a filosofia que orientou o modelo ainda de 2014, o primeiro da era híbrida, e incrivelmente se estendeu até o ano passado, suas dificuldades iniciais são naturais, ainda mais em razão da pouca ou nenhuma experiência de seus pilotos, Lance Stroll e Sergey Sirotkin. O canadense completou 54 voltas no seco, obtendo 1min21s142, sétimo, e o russo, de manhã, no molhado, 47, com intermediários. Até que a Williams faça tudo funcionar e os primeiros resultados apareçam é provável que sejam necessários algumas etapas do mundial.

O que os promotores da F1, os profissionais contratados pelo Liberty Media, mais desejam, possivelmente, é que na semana que vem, na segunda série de testes, Ferrari e RBR, pelo menos, desmintam a distante impressão deixada pela Mercedes nesta quinta-feira. Tudo não teria passado de um golpe de sorte da escuderia alemã, em ter o carro bem acertado para aquelas condições específicas do dia, ao contrário da concorrência. Será bem mais saudável para o evento.

G1

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