Racismo

Estamos num momento em que o racismo não é mais permitido. Vamos rebater

Uma piada racista é apenas uma brincadeira ou revela como os negros são vistos no Brasil? A questão veio mais uma vez à tona no último sábado, quando o influenciador digital Júlio Cocielo indignou milhares de internautas ao postar em seu perfil no Twitter, que conta com quase 7,5 milhões de seguidores, que o jogador negro francês — e revelação da Copa do Mundo Rússia 2018 — Lylian Mbappé “conseguiria fazer uns arrastão top na praia”. A mensagem foi apagada e o youtuber escreveu um pedido desculpas, em que afirmava ter se referido à velocidade do craque, mas o estrago já estava feito: mensagens racistas antigas tuitadas por ele foram recuperadas, e as empresas que o patrocinam foram questionadas nas redes sociais. O episódio fez a celebridade virtual perder patrocínios e mobilizou ativistas contra o influencer. Na segunda-feira foi a vez do também youtuber Spartakus Santiago se pronunciar. Ele publicou um vídeo como resposta, que teve até a tarde desta terça mais de 1,5 milhão de visualizações.

“Ele pensou em uma piada rápida quando viu o jogador correndo e associou a primeira coisa que veio na cabeça dele. E a imagem que veio de uma pessoa negra correndo foi a um arrastão. Esse é o tipo de associação que não acontece quando veem um jogador branco correr. Eu nunca vi um jogador branco ser associado a um ladrão porque está correndo rápido”, explica Santiago ao EL PAÍS. “Nós [negros] somos associados com bandidos diariamente. Não tem como achar que isso é piada. Tem muitas coisas que são apenas brincadeiras, mas que na verdade nos oprimem”.

No vídeo, Santiago lembra que Mbappé ganha o equivalente a 90.000 reais por jogo na Copa do Mundo e doa toda essa quantia para instituições de caridade. “Mas isso não importa, porque ele é negro. E negro correndo para brasileiro é gente fazendo arrastão”, argumenta o baiano, de 23 anos. “Tudo porque o consciente coletivo diz que preto é automaticamente ladrão. E você, Cocielo, como grande influenciador, youtuber com milhões de seguidores, está reforçando esse pensamento”. Foi criada a hashtag #RacismoNãoÉPiada e outros ativistas e influencers também responderam ao comentário racista.

 

Formado em comunicação pela UFF e em direção de arte pela Miami Ad School, Santiago inaugurou seu canal no Youtube em 2017, hoje com mais de 60.000 inscritos, para falar de temas como LGBTfobia, racismo, desigualdade racial, colorismo, apropriação cultural, entre outros. O objetivo, explica em seu perfil no Facebook, é “utilizar uma linguagem didática” para debater esses temas “através dos acontecimentos da mídia”. Foi com isso em mente que ele publicou, junto com o youtuber AD Junior e o jornalista Edu Carvalho, um vídeo sobre como a população negra deveria sobreviver a uma abordagem policial indevida durante a intervenção federal no Rio de Janeiro. Não foi diferente após a publicação e repercussão do tweet racista de Cocielo. “O intuito da minha resposta foi esclarecer as pessoas de por que aquilo é racista, já que muita gente fica dizendo que é mimimi, que besteira, sem querer se preocupar em entender o contexto”, explica ele. “Também para que o próprio Cocielo entenda e se posicione, já que ele está em silêncio até agora. Para não perder mais nenhum outro patrocínio, ele não está falando nada, mas ele precisa se posicionar! Porque ele fez algo muito ruim”.

Cocielo até pediu desculpas por sua mensagem e se disse arrependido, mas apenas no Twitter — em seu canal de Youtube, chamado Canal Canalha, com quase 17 milhões de inscritos, não há nenhum vídeo prestando esclarecimentos. Também apagou todos os seus tweets, muitos deles com conteúdos racista ainda mais agressivos. “O Brasil seria mais lindo se não houvesse frescura com piadas racistas. Mas já que é proibido, a única solução é exterminar os negros”, diz em um deles. “Nada contra os negros, tirando a melanina”, comenta em outro. “Eu queria ter gravado um vídeo sobre o dia da consciência negra, só que aí deixei queto porque na cela não tem wi-fi”.

“O que mudou é que ele postou essas outras mensagens em 2013, quando a gente não estava num momento de tanto debate sobre negritude, movimentos LGBT ou feminismo. Eram questões que pessoas ignoravam ou levavam na brincadeira, achavam que era piada de ‘humor negro'”, explica Santiago. “Graças a Deus estamos num momento em que isso não é mais permitido. Vamos rebater”, acrescenta. E uma das importâncias em sempre rebater, explica Santiago, está no fato de que a maior parte dos fãs e seguidores de Cocielo são adolescentes e crianças. “Tudo o que ele fala essas pessoas concordam. Mesmo com toda a mídia se posicionando contra o Cocielo, muitos dos fãs ainda estão apoiando. O perigo mora aí, porque são pessoas que começam a achar que piada racista é bobagem e vão reproduzir esses comportamentos na escola, na rua, em casa… E vai ser terrível para todos nós”.

Marcas retiram patrocínios

Adidas, Submarino e Itaú são algumas das marcas que até esta semana patrocinavam — inclusive a viagem até a Rússia para a Copa — ou possuíam campanhas publicitárias com Cocielo. Gillette, Coca-Cola e McDonald’s estão entre as que também já tiveram alguma relação com o rapaz. Pressionadas, elas suspenderam qualquer tipo de relação e se posicionaram contra a mensagem. A Adidas, a mais cobrada entre elas, disse que repudia “todo e qualquer tipo de discriminação”. Para Santiago, essas marcas também têm responsabilidades, por estarem “pagando o racismo dessa pessoa”, opina. “É bom que tenham ciência, porque os influenciadores são um fenômeno recente, com um poder de influência enorme, e as empresas têm que entender como lidar com isso”, argumenta. Ele afirma ainda que as marcas pecaram ao não pesquisarem os tweets antigos de Cocielo, o que mostra que elas ainda “não estão preparadas para selecionar influenciadores” e que precisam “se profissionalizar nisso para depois não terem prejuízo”. E acrescenta: “Não é só porque uma pessoa tem um milhão de seguidores que por isso vão poder confiar nelas para trazer retorno para o negócio. Se o influenciador que você atrelou sua marca fizer alguma coisa ruim, a sua marca também vai por água abaixo. É preciso não só analisar a quantidade, mas também a qualidade”.

Santiago também reclama da pouca diversidade de youtubers patrocinados. “No Lollapalooza, todos eles eram brancos. As empresas ainda não acordaram para essas questões. Nessas seleções de quem elas dão voz, elas acabam às vezes reforçando opressões. É preciso que essas empresas notem não só o que falam, mas também as diversidades e quem eles representam”. Sobre Cocielo, diz ainda não considerá-lo uma pessoa conservadora, mas, sim, despolitizada “que ignora esses debates porque quer manter o privilégio de fazer suas piadas”.

 

 

 

 

 

El Pais

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