Economia

Cotação do dólar vai ficar nas alturas até depois das eleições

A consolidação de um nome para a presidência da República nas urnas em outubro pode não ser suficiente para fazer ceder a pressão do dólar sobre o real. Especialistas afirmam que, a exemplo de 2002, o mercado pode continuar na defensiva após outubro e a moeda americana não voltaria de imediato a um patamar pré-volatilidade eleitoral, mais próximo dos R$ 3,50 que dos R$ 4. Levantamento feito com dados da última eleição turbulenta para o mercado, em 2002, mostra que, mesmo com os esforços da chapa eleita naquela época para mostrar que seguiria uma política econômica aliada ao mercado, o dólar custou a ceder e só voltou ao patamar anterior no fim de abril de 2003.

No período eleitoral que culminou no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, o dólar saiu de R$ 2,3040 no fechamento do dia 2 de janeiro de 2002 para R$ 3,6280 em 2 de dezembro, uma alta de 57,4%. A aceleração se consolidou em maio e o câmbio saltou de patamar definitivamente – dos R$ 2 para os R$ 3 – no fim de julho. O dólar só voltou a fechar abaixo de R$ 3 novamente em 28 de abril de 2003, 117 dias após Lula assumir o Palácio do Planalto. Naquele dia, o dólar fechou cotado a R$ 2,9620.

Em 2018, o dólar rompeu a barreira dos R$ 4 (para o fechamento) em 21 de agosto, quando bateu em R$ 4,0414. E entrou setembro a R$ 4,1506, com perspectiva de alta diante do cenário eleitoral incerto. Para o ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências Gustavo Loyola, o mercado está “claramente na defensiva” e só vai começar a reverter essa tendência quando os agentes perceberem que o próximo presidente vai prosseguir com as reformas.

No momento, os investidores estão embutindo dois riscos: o de que o próximo presidente possa não ter governabilidade e o de que o ajuste fiscal não vai avançar. “Pode haver uma melhora dos preços quando e se o mercado tiver uma avaliação mais positiva do próximo presidente, principalmente sobre a questão fiscal”, diz Loyola. A despeito de o país ter uma economia mais madura hoje que há 16 anos, o próximo governante terá que fazer uma série de reformas para garantir o reequilíbrio das contas públicas. Há um consenso entre os especialistas que a situação fiscal atual é frágil e pode se deteriorar ainda mais caso as medidas adequadas não sejam tomadas.

Os analistas da consultoria inglesa Capital Economics ressaltam que o tamanho do desafio que o Brasil tem pela frente para resolver seu problema fiscal é tão grande que mesmo a vitória de um candidato “amigável ao mercado” terá dificuldades para estabilizar o crescimento da dívida pública. O mercado quer garantir primeiro que o novo presidente terá governabilidade para votar medidas impopulares no Congresso.

O economista-chefe da Capital Economics para mercados emergentes, William Jackson, avalia que o dólar pode se valorizar ainda mais no mercado doméstico a ponto de chegar aos R$ 4,50 em 2019. “Parece que o mercado começou a precificar o risco político apenas nas últimas semanas”, ressalta. Para a casa, além das reformas, como a da Previdência, serem impopulares, dois dos nomes que despontam nas pesquisas – Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) – tendem a adotar políticas populistas, mais um fator para manter os preços dos ativos pressionados.

Incertezas

O ex-diretor do Banco Central Carlos Eduardo de Freitas afirma que, diferentemente de 2002, quando estava certa a direção que as eleições tomariam, consolidando a vitória de Lula, neste ano o cenário é completamente incerto. Além de não haver definições mesmo a menos de um mês das eleições, a avaliação do economista é que os candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto para assumir a Presidência da República em 2019 ainda são, majoritariamente, incógnitas ao mercado em termos de direção para política econômica.

“Em situações como essas, o mercado prefere agir como São Tomé: é preciso ver para crer”, aponta Freitas, completando: “A mesma coisa se repetirá agora, com alguma diferença. Em 2002, a partir de julho ficou claro que Lula era ganhador. O medo era do Lula. Hoje, não tem ganhador certo. Ainda é difuso. O mercado fica em dúvida. Com exceção do Alckmin, os outros (no topo das pesquisas) são desconhecidos do mercado”.

“Hoje a situação está toda embolada”, ressalta o ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital. Sem referências mais claras, os preços dos ativos embutem mais risco. Figueiredo é mais otimista e avalia que os preços dos ativos podem começar a ter certo alívio quando o quadro para o segundo turno ficar mais claro e se souber a linha dos dois candidatos.

Para Freitas, o próximo presidente terá que se esforçar para mostrar, ainda neste ano, a que veio. Sobretudo se o ganhador tiver um viés de esquerda. Em junho de 2002, o então candidato Lula publicou a “Carta ao Povo Brasileiro”, na tentativa de aliviar o estresse do mercado. Com o documento, o dólar chegou a ceder, indo dos R$ 2,8400 para R$ 2,7800, mas rapidamente recuperou o movimento de escalada.

A resistência do mercado naquela época foi evidenciada ainda em outro evento quando, em 22 de dezembro, já eleito, Lula anunciou Henrique Meirelles para o Banco Central. Apesar de começar a oscilar para baixo, o dólar só acelerou e consolidou a queda em abril do ano seguinte. Ainda assim, Freitas pondera que um movimento dos candidatos ou do próximo presidente tem, sim, potencial de acalmar o mercado e diminuir ao menos em parte a volatilidade.

Freitas deixa claro, no entanto, que ao contrário de 2002, a instabilidade cambial não representa uma crise propriamente no país e destaca que o BC tem meios adequados e suficientes para lidar com a volatilidade. Há 16 anos, a situação externa complicada do país, endividado em dólar e com baixo nível de reservas para conter o avanço do dólar, contribuiu para a disparada da divisa frente ao real.

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